Chico Burra Cega

7 de abril de 2013
A vida e o tempo

Eu queria todos os sonhos e quase nada tenho do que sonhei, mas ainda tenho a vida, que é tudo.
A vida é tempo; se passar, não volta. Também o amor é tempo, se passar, não volta. A mocidade é vida, como o tempo, se passar, não volta. A ilusão, como a mocidade, é tempo, se passar, não volta.
O tempo é vida, passa. Só a saudade não passa com o tempo. E porque não morre nem passa, domina o tempo, não passa nem morre antes da morte.
Quando meu avô paterno morreu, eu, criança de 13 anos, estava ao lado da sua rede.
Presenciei o seu último suspiro, segurando uma vela em sua mão. Nunca esqueci esse momento, em que seus olhos azulados, fixados em mim, fecharam-se para sempre e sua alma, com o último suspiro, voou para o infinito.
Quando meu pai morreu senti profunda desolação no hospital sem vela nem rede nem reza. Momento amargo de consternação e muita aflição. Morria meu ídolo e meu herói.
Desde esse tempo, ao constatar a frieza dos médicos e a parafernália que precede à morte nos hospitais, sem vela, sem rede nem reza nasceu em mim certo medo de hospitais, mais ou menos igual àquele que, criança, sentia dos papa-figos. 
Depois morreu minha mãe. Quase morro também, tão grande foi a minha dor, ao vê-la sofrer tanto. Morreu de saudade, de desencanto. E de lúpus eritematoso.
Quanto à saudade e o desengano não importa falar. Mas quanto ao lúpus, doença incurável, é terrível!
Na hora da morte, apenas quatro dos cinco filhos estavam ao lado do seu leito. A caçula, a quem mais queria bem, por quem constantemente chamava nos dias finais da longa agonia, não pode chegar a tempo! Último desengano da vida.
Meus pais assim partiram. Todos os filhos ficaram e os irmãos deles também.
Poucos anos depois, morreu Dalva, a caçula, a que não pode estar presente nos últimos momentos de vida do pai e da mãe. Era médica, solteira e filantropa atuante voltada para os doentes mentais..
Eu, por coincidência, estava em Recife, bem perto dela e nada sabia sobre a gravidade do seu estado de saúde.
Providenciei o sepultamento e escrevi um folheto de emoção.
Parece até que senti dor maior do que as anteriores dores. As dores por meu pai, as dores por minha mãe.
A dor de perder de forma tão inesperada minha irmã caçula.
A menina dos olhos de minha mãe. O mimoso afago de meu pai.
Minha estrela-d’alva, tão humilde quanto brilhante, feliz, desprendida e abnegada.
Santa sem santidade, altruísta sem filantropismo, cristã sem igreja nem credo.
Morreu sozinha, como sozinha viveu, na cruz do seu estoicismo.
Meses depois morreu José. Estudioso e inteligente, dedicado e competente.
Na mocidade foi brilhante como estudante, como engenheiro e professor universitário.
Um grande irmão, um grande amigo.
De temperamento afável e introvertido.
Dois mais velhos e dois mais moços, dos cinco irmãos era o do meio.
E por ter sido o primeiro a se tornar financeiramente independente, a todos os irmãos ajudou.
Na firmeza moral, principalmente na honestidade, e até nos traços fisionômicos, era exatamente igual ao nosso pai. 
A família vai se extinguindo, passando o bastão do tempo para as novas gerações, que receberão a saudade transformada em reminiscências ou histórias, o tempo dos que não participaram da vida dos que lhes transmitiram a vida.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó - www.culpoblogue.com


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