artériaPAULISTA


8 de abril de 2013
Silêncio gritante

Um homem bem vestido, que essas qualificações imbecis do politicamente correto chamaria de “pardo”, estava a poucos metros de mim diante de uma gôndola de frios do supermercado instalado numa rua famosa dos Jardins. Mais à direita dele, aproximou-se devagarinho uma senhora tipicamente quatrocentona, na casa octogenária da vida, impecável em sua elegância. Empertigada, cabelos loiros – obviamente “farmacêuticos” –, olhos azuis, pele claríssima. Pretendia pegar seu pote de requeijão.
       Incontinente, foi chegando perto demais do homem bem vestido, numa trajetória que deixava inequívoca a intenção de ter prioridade. Certa de possuir o direito de impor ao outro o afastamento imediato, para que pudesse fazer sua escolha livremente e seguir em frente. Tinha aquele ar démodé de quem não costuma enxergar o derredor.
       O homem bem vestido permaneceu imóvel e a mulher esbarrou nele. Sequer dirigiu-lhe o olhar, muito menos qualquer palavra. Apenas se movia tentando passar de qualquer jeito. “A senhora quer passar por cima de mim?”, ele quis saber. Nenhuma resposta. “A senhora não sabe pedir licença?”, insistiu. Silêncio imóvel, gritante.
       O homem movimentou o carrinho de compras e, com o próprio corpo, completou o fechamento do espaço que havia entre ele, a gôndola de frios e uma pilastra. “A senhora não vai passar aqui; estou cortando sua passagem pela sua arrogância”, decretou, mantendo nela o olhar firme.
       A velha senhora ainda estirou o braço, tentando alcançar o pote de requeijão. Não havia espaço para aquele passo; o homem cortara todas as possibilidades e só restou a ela recuar. E lá se foi a mulher sem pegar nada. Mais adiante, encontrei-a diante do balcão do açougue, conversando com o funcionário. Estava claro que não era surda. Estava claro que guardava com o balconista negro a mesma distância dos que se acham superiores. Diferentemente dos idosos que despertam na gente afeto imediato, aquela velha senhora era digna de pena. Não passava de uma infeliz.
cardápio da imprensa
  • Respeitando o quadro atual, uma pergunta que não quer calar: já comeu o seu tomate hoje? Afinal, com o quilo a US$ 5, não é mais pra qualquer um.
  • Pesquisa realizada em parceria pela revista Veja São Paulo e a consultoria Ernst & Young Terco oferece uma receita indigesta: São Paulo tem a pizza mais cara do mundo. O preço médio de R$ 52 é maior do que em Nova York (R$ 36), Tóquio (R$ 33), Buenos Aires (R$ 28) e Paris (R$ 26). Os preços para os paulistanos variaram de R$ 27,90 a R$ 150,00 por unidade. A versão individual (brotinho) custa R$ 13 em Nápoles (berço da pizza) e R$ 27 aqui em Sampa. Pelo visto, a mania de grandeza que o tomate anda assumindo deve ter sido influência pela velha parceira de mesa.
  • A princesa Cristina, filha do rei da Espanha foi intimada a depor na Justiça, suspeita de cumplicidade em crimes do maridão acusado de desviar dinheiro público. O pai Juan Carlos foi taxativo ao afirmar que a lei é igual para todos.
  • SSomente uma sociedade com grau de ignorância profundo se permite manipular a ponto de aceitar uma figura do porte de Nicolás Maduro vir a público comparar um rábula como Hugo Chávez ao Cristo Redentor. Pobre Venezuela!
  • O caso de Eike Batista é emblemático. Segundo notícias cada vez mais insistentes, teria passado de empresário visionário e infalível a uma situação pré-falimentar. Hoje, as palavras do jornalista J.R. Guzzo soam cortantes para o homem que sempre vendeu vento: “Eike, no noticiário, está num eterno ‘vai’ – vai fazer, investir, negociar, estudar, comprar, vender, associar-se. Não se fala, depois, no resultado dessas intenções”.
A “velha” Cristina Kirchner deve estar arrependidíssima de ter deixado José Mujica sem carona na Venezuela – ela se mandou para o aeroporto enfurecida, ao descobrir um boneco de cera dentro do caixão de Hugo Chávez, e largou o velho Mujica para trás.
  • A companhia aérea Samoa Air, de Samoa, país minúsculo do Pacífico, implantou uma novidade que promete gerar polêmica: passou a tarifar as passagens com base na soma do peso do passageiro e da sua bagagem, cobrando cerca de R$ 2 por quilo. Provavelmente a medida foi tomada porque o país tem 70% de obesos na população de 190 mil habitantes. Enquanto outras companhias estudam adotar a mesma política de passagens a peso, na Air France e na American Airlines pessoas gordas que ocupem dois assentos já são obrigadas a pagar dobrado por suas viagens.
  • Uma novidade tecnológica pode ajudar a diminuir a violência policial. Trata-se de um colete à prova de balas que traz uma microcâmera capaz de filmar todas as ações policiais. Ela é acionada no momento em que a trava do colete é fechada para uso e não pode ser desligada a partir desse momento.
  • A lei brasileira de biografias, que não tem similar no mundo, está prestes a mudar e acabar com a censura imposta por herdeiros e sucessores de pessoas famosas. Muito em breve, quem assumir o papel de biógrafo de celebridades poderá escrever livremente, inclusive sobre fatos desagradáveis da vida de seus biografados. Já não era sem tempo.
  • Ao anunciar sua nova relação amorosa com outra mulher, Daniela Mercury coloca sua popularidade a serviço de outras pessoas que, sem sua visibilidade, sofrem os horrores da discriminação covarde pela opção sexual. Irradiando felicidade, Daniela cunhou uma frase definitiva: “Eu sou quem sou. Apenas comuniquei que casei com Malu”.
  • Há pouco mais de um ano, Rita Lee anunciou que estava se aposentando dos shows e trabalharia somente em estúdio. Descumpriu a promessa e ainda acrescentou uma novidade à carreira lendária: mostrar as nádegas ao público de vez em quando, retocando com uma frase de efeito: “Mostrar é normal, envelhecer é que é tabu”. Como dizia a letra de Coisas da vida, uma de suas músicas (lindas), “Qual é a moral? Qual vai ser o final dessa história!”.


Nicolás Maduro disse que esteve com Hugo Chávez encarnado num passarinho, e que cantaram juntos. Deve ter sido um passaralho, também conhecido como caralho de asa.

Zé Prativainosso ornitólogo de estimação.

alarido

A vantagem de quem não vai muito longe é voltar mais depressa.”
(Millôr Fernandes, gênio da raça)

“Procuradoria aciona PF para investigar Lula no mensalão.”
(Manchete do Estadão, anunciando o início da investigação da denúncia de Marcos Valério, que acusou Lula da Silva de negociar repasse ilegal de US$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT – os recursos teriam sido transferidos ao partido por meio de uma fornecedora da empresa com sede em Macau, China, via depósitos nas contas bancárias de publicitários que trabalharam em diversas campanhas eleitorais petistas)

“Todas as acusações feitas por Valério ocuparam 13 páginas.”
(Trecho da mesma matéria, revelando a força do número 13 na vida do partido)

“Na imprensa mundial o Brasil é tratado como uma ex-esperança, atual vexame. Até o drama de Chipre vai nos beneficiar com ingresso de capitais. Estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de imbecis com dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do Muro de Berlim. Esses canalhas desprezam a sociedade e acham que o Estado tem de nos tutelar. Por que a besta do Brasil não prospera, por que continua atrás dos Brics, atrás da América Latina, por que até a Petrobras caiu para a metade, saqueada pela porcada magra sindicalista? Por quê? Temos grana entrando, temos um governo com maioria total no Legislativo, sem oposição, sem nada. Por que não vamos para a frente? Por quê, porra? Os diagnósticos são iguais no mundo todo: uma presidente rachada ao meio por fissuras ideológicas e dominada pela fome eleitoral do PT, a fim de virar um partido mexicano como o PRI. Os europeus têm inveja e desprezo por nós, porque eles querem sair da crise e não conseguem e nós temos tudo para nos salvar e não queremos... Mas, até quando esse ‘chove-não-molha’ vai aguentar? Algo muito ruim cozinha em banho-maria nosso progresso. Há alguma coisa ‘não-acontecendo’ no Brasil que me dá arrepios.”
(Arnaldo Jabor, em artigo no Estadão)

“De repente, entrou um passarinho e deu três voltas sobre mim. Eu o senti aqui como uma bênção.”
(Nicolás Maduro, o inacreditável, descrevendo a reencarnação alada de Hugo Chávez)

“Pergunta na gaiola: seria o nosso conhecido ‘vira-bosta’ o passarinho Chávez que Nicolás Maduro diz ter visto?”
(Cláudio Humberto, jornalista, fazendo referência ao escaravelho – o velho besouro rola-bosta que a molecada da minha época tratava pela corruptela ‘rola-bostov’ – depois que Nicolás Maduro declarou ter encontrado, dentro de uma capela, Hugo Chávez reencarnado num passarinho)

“Esta velha é pior que o vesgo.”
(José Mujica, presidente do Uruguai, falando do casal Kirchner com a autoridade de quem os conhece de perto)

“Desbocado, fajuto, viejito.”
(Adjetivos óbvios que os bajuladores da “velha” passaram a usar contra José Mujica)

“Eu queria dizer para vocês, nesta noite, aqui no Ceará, em Fortaleza e nessa escola, o compromisso forte, o compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo. Porque é que o compromisso com a educação tem que ser o maior compromisso de um governo.”
(Dilma Rousseff, no seu eterno compromisso com o português ruim, desacatando o compromisso com a educação)

“O julgamento já se deu: o que está deliberado, está deliberado.”
(Gilmar Mendes, ministro do STF, duvidando da reversão da sentença dos mensaleiros petistas condenados)

“...além daqueles duzentinhos do BNDES, há uma proximidade perigosa entre Eike Batista e o Tesouro Nacional – perigosa não para ele, claro, mas para quem paga as contas do Brasil para Todos.”
(J.R. Guzzo, jornalista, falando dos R$ 200 milhões que o BNDES enterrou na reforma do Hotel Glória, no Rio – que não ficará pronto para a Copa –, e dos esforços de Lula da Silva e do governo para ajudar o empresário Eike Batista em seus projetos mirabolantes)

“Na medida em que o governo opta por crer em suas próprias mentiras, e atua em função desse autoengano, entra no reino da fantasia. O discurso esquizofrênico se converte em verdade oficial. Cristina Kirchner constrói um relato fictício da história da Argentina e o proclama ante auditórios selecionados para que a aplaudam.”
(Rodrigo Botero Montoya, economista e ex-ministro da Fazenda da Colômbia)

“Para nossa inteligentzia (??!!) o que indigna, eticamente, na Castrolândia, não são décadas de uma tirania patética e homicida, e sim, apenas, Guantámano. Cuba são duas prisões abjetas: Guantánamo e Cuba (dizem que na primeira as filas para se conseguir comida são menores). Mas como só uma é propriedade dos imperialistas, apenas essa é objeto de repulsa ‘ética’.”
(Claudio Manoel, humorista do Casseta & Planeta)

“Compre seu ingresso para a Copa antes que o estádio desabe.”
(Cláudio Humberto, jornalista)

“Comecei como uma péssima atriz e continuei sendo exatamente isso, uma péssima atriz.”
(Brigitte Bardot, a deusa francesa que enfeitiçou o mundo nos anos 60)
moleskine
A Segunda Guerra sempre me despertou grandes curiosidades, a partir de leituras históricas e de muitos dos filmes que foram feitos a respeito dela. Dentre todas as sagas que o conflito produziu, a que mais impressiona é a dos cidadãos judeus covardemente perseguidos e massacrados pelo III Reich. O filme Nos braços de estranhos (ganhador do Oscar de melhor documentário de 2000), do diretor Mark Jonathan Harris traz um delicado e doloroso relato. A partir do depoimento de sobreviventes – que eram crianças entre 1938 e 1939 –, descortina o Kindertransport, uma extraordinária operação de salvação de dez mil crianças e jovens, que foram enviados pelas próprias famílias para a Inglaterra. Alguns deles, tempos depois e já vivendo em segurança em solo inglês, conseguiram resgatar os próprios pais das mãos do nazismo.

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