Manoel Torres para sempre

Manoel Torres de Araújo 
*1918               +2012

Agradecimento

Nenhuma medicação será capaz de amenizar a dor da perda e a saudade do meu pai Manoel Torres de Araújo, meu exemplo de vida, meu conselheiro, minha inspiração, minha eterna razão de viver.
Mas ainda sob o impacto e o sofrimento, jamais posso deixar de exercer um dos mandamentos que ele me ensinou: a gratidão. 
Quero, do fundo do meu coração e em nome dos meus familiares, agradecer cada gesto de conforto recebido no calvário da doença do meu pai e no infinito martírio que a sua morte nos impõe.
Gostaria de poder apertar a mão de cada um que rezou, mandou mensagens pela internet, fez visitas ao hospital, transmitiu palavras de apoio e esperança.
Uma palavra especial aos humildes. 
Ao povo simples de Caicó, a gente que sofreu tanto quanto nós, os descendentes do sangue de Manoel Torres. 
As lágrimas sinceras e verdadeiras daqueles de mãos calejadas, pés descalços e amor no coração, nos comoveram.
Por eles e para eles, Manoel Torres de Araújo viveu.
Por eles e para eles, é um orgulho ter convivido, respeitado e amado Manoel Torres de Araújo.
Carlos Alberto de Oliveira Torres (Galileu)




Corpo de Manoel Torres é transportado para a Catedral de Sant'Ana

Caicó parou no dia 16 de janeiro de 2012 para reverenciar pela última vez o ex-prefeito e ex-deputado estadual Manoel Torres de Araújo.
Morto aos 93 anos, domingo, dia 15, seu corpo foi sepultado no Cemitério Campo Jorge, em Caicó, cidade que ele administrou em duas ocasiões e foi vice-prefeito em uma.
Milhares de pessoas foram as ruas se despedir do líder, na Prefeitura, na Catedral de Sant'Ana e nas ruas.
Manifestações espontâneas foram registradas até o último momento em que o corpo permaneceu no Salão Nobre da Prefeitura de Caicó.
Cidadãos simples, gente do povo, políticos de todas as cidades do Seridó e parte do Rio Grande do Norte se reuniram numa prece pelo descanso eterno do homem que se transformou em símbolo da honestidade na vida pública.
Da Prefeitura o corpo foi transportado para a Catedral de Sant'Ana, onde foi celebrada missa de corpo presente.
Lá, novamente o povo se manifestou e aplaudiu o líder depois de ouvir a homilia do monsenhor Antenor Salvino de Araújo e as palavras proferidas por Fernando Antonio Bezerra (em nome da família), ex-deputado Álvaro Dias (pelas lideranças do Seridó), deputado Ricardo Mota (Presidente da Assembleia Legislativa), deputado Henrique Alves (classe política) e a governadora Rosalba Ciarlini, que falou em nome do povo do Rio Grande do Norte.
Bar de Ferreirinha registrou a presença dos deputados estaduais Vivaldo Costa, Nélter Queiroz e Gustavo Carvalho, deputado federal Betinho Rosado, prefeito Bibi Costa, vereadores de Caicó e da região, além de prefeitos e outras lideranças.
Mas a Igreja estava lotada mesmo era pelo povão que, emocionado, se despediu para sempre do velho líder.
O corpo de Manoel Torres foi sepultado, mas os seus ideais de honestidade, lealdade, compromisso, trabalho e solidariedade permanecerão para sempre como um exemplo a ser seguido pelas atuais e futuras gerações de norte-rio-grandenses.
Abaixo, as imagens da despedida:
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
  
   
 
 
 
 
  
 
 
  
 
 
  
 
  
 
  
 
  
  
 
 
 
 


Um político sem sombra de mácula
Francisco de Assis Medeiros

Com a morte de Manoel Torres de Araújo, Caicó perde o seu maior líder político depois de José Augusto Bezerra de Medeiros, Monsenhor Walfredo Gurgel e Dinarte Mariz, este nascido em Serra Negra, mas domiciliado em Caicó a vida toda.
Certa feita, Djalma Marinho defendendo-se de acusação lançada em campanha política, esbravejou do palanque: “Sou homem de uma religião só, de um partido só e de uma mulher só.” Naquela época (1960), como hoje, no quadro político do Estado, acho que somente ele, Djalma, poderia assim ser qualificado. Um político sem sombra de qualquer mácula. 
Caicó acaba de perder o seu político verdadeiramente sem mácula, Manoel Torres de Araújo, homem de boa vontade, servidor incansável dos interesses comuns do seu povo, trabalhador compulsivo nas atividades privadas que exercia e, na política, correligionário fiel e adversário correto.
Posso testemunhar seus méritos com essas palavras porque quase ao final da década de 1960 nos enfrentamos numa das mais ferrenhas campanhas eleitorais já ocorridas no município. Éramos do mesmo partido, a ARENA (naquele tempo não havia MDB no Rio Grande do Norte, que eram esses os dois únicos partidos do Brasil). E havia o instituto da sublegenda que permitia ao mesmo partido lançar até três candidatos para disputar o mesmo mandato de prefeito!
Manoel Torres saiu candidato pela ARENA VERDE; eu, pela ARENA VERMELHA. Ele procedia do antigo PSD (Partido Social Democrático); eu, da antiga UDN (União Democrática Nacional), velhos partidos extintos pela Revolução de 1964, aos quais sempre pertencêramos. Foi um embate memorável e profundamente democrático, muito sério e acalorado, porque, acima de tudo, nunca mudamos de partido, ele sempre pessedista e eu udenista desde a primeira campanha presidencial do Brigadeiro Eduardo Gomes.
A verdade é que na militância política atual não há ninguém no Município de Caicó que, coerente como Manoel Torres, durante a vida toda nunca tenha mudado de partido. Morreu em avançada idade, fiel em doutrina e princípios à mesma legenda a que se filiara na mocidade.
Destarte, com a morte de Manoel Torres fica encerrado mais um edificante, profícuo e memorável ciclo político na história de Caicó.
Manoel Torres, não só pela retidão da sua vida, senão também pela eficácia da sua liderança política, merece todas as bênçãos de Deus, do povo e da posteridade.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó



Algodoeiras recolhidas
Janduhi Medeiros

As algodoeiras amanheceram recolhidas.
Cessaram-se as safras.
As sementes da honestidade 
Ocultaram-se na aflição do tempo.

Ah, Manoel Torres, 
Como a rua é erma sem a voz da liderança. 

Caicó quer aplaudir o seu último discurso.
A cor do algodão 
Sente que a cidade íntegra está recolhida.
O sertão tem que resistir.

Teu caráter, 
Manoel Torres, 
Incentiva a política e o militante.
Porém, 
Neste instante vigora um imenso silêncio 
Nos palanques do Seridó,
Como se a tarde estivesse se despedindo do sertão.

Panelas!
A existência brotou do barro.
A cruz é uma lembrança da caminhada.

Teu exemplo, 
Manoel Torres, 
Incentiva a política e o militante.
Valoriza a ideologia,
Alimenta o debate útil.

Manoel Torres,
A mesma política da terra, 
Faça no céu. 
A morte aos 93 anos

Caicó e o Rio Grande do Norte amanheceram de luto no dia 15 de janeiro de 2012.
Às 6h45 o coração de Manoel Torres de Araújo - empresário, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Caicó - parou de bater.
Ele estava com 93 anos de idade, a um mês de completar 94 anos.
Ele estava internado na Casa de Saúde São Lucas, em Natal, desde meados do mês de dezembro de 2011, quando sofreu uma fratura no fêmur, e morreu vitimado por complicações no aparelho respiratório.
O corpo de Manoel Torres foi velado durante uma hora no Centro de Velório Morada da Paz, em Natal, para as despedidas dos amigos e conterrâneos que se encontravam na capital.
Depois, foi transportado para Caicó e foi velado no Salão Nobre da Prefeitura Municipal, onde ele ocupou a cadeira de prefeito em duas oportunidades.
O prefeito de Caicó, Bibi Costa, decretou luto oficial por três dias.

O velório em Caicó

Velório de Manoel Torres em Caicó. Foto: Heitor Gregório

O corpo de Manoel Torres de Araújo foi velado no Salão Nobre da Prefeitura de Caicó, prédio que ele ocupou em duas oportunidades como prefeito.
Milhares de pessoas passaram por lá para se despedir e reverenciar o líder. 
A Banda de Música Recreio Caicoense tocou a música Bandeira Branca, muito usada nas campanhas eleitorais de Manoel Torres.
Coroas de flores chegaram de vários lugares do Rio Grande do Norte.
Prefeitos e ex-prefeitos das cidades do Seridó foram se solidarizar com a família.
A Prefeitura de Caicó e o Governo do Estado decretaram luto oficial por três dias, em homenagem ao líder caicoense.
O prefeito de Tiimbaúba dos Batistas, Ivanildo Filho, também decretou luto oficial por três dias no município. 
'Seu Mané' nasceu no sítio Clemente, município de Timbaúba dos Batistas. 
Era membro da chamada Família Panela. 
Foi o próprio Manoel Torres que, através de projeto de lei aprovado na Assembleia Legislativa, emancipou a cidade de Timbaúba dos Batistas há 50 anos.
Notas de pesar de vários políticos norte-rio-grandenses destacaram a história de vida do homem público Manoel Torres.
O ministro da Previdência Social Garibaldi Filho (foto abaixo), muito chocado, foi se despedir do amigo e correligionário, e disse que a morte de Manoel Torres foi uma perda imensa para Caicó, Seridó e Rio Grande do Norte. 
"É um homem que deixou um exemplo de honestidade, lealdade e correção para todos nós. Era um homem de bem, um homem de palavra, um homem de compromisso", disse Garibaldi.


A repercussão

A morte de Manoel Torres de Araújo, enquanto espalha grande tristeza por todo o Rio Grande do Norte, dá-nos ensejo para reverenciar sua ilustre trajetória de vida, e para manifestar a esperança de que sua honrada memória seja exemplo a ser seguido pelos norte-rio-grandenses.
Rosalba Ciarlini – Governadora

Um grande amigo, cuja convivência de muitas décadas criou um vínculo de afeição e admiração pela sua personalidade inconfundível e pela firmeza de suas convicções.
Garibaldi Filho – Ministro da Previdência

É com grande consternação que recebi o falecimento do Manoel Torres de Araújo, ex-prefeito de Caicó e figura das mais expressivas e importantes da história política do estado.
Ivonete Dantas – Senadora

Não se faz mais hoje um homem público como Manoel Torres. Presidente de honra do PMDB, mas também presidente de honra da ética, da coragem e da altivez.
Henrique Alves - Deputado Federal

Perde Caicó, o Seridó e o Rio Grande do Norte pela figura humana extraordinária e homem público, marcado pela ética, espírito público, compromisso e amor à terra querida.
Fátima Bezerra – Deputada Federal

Recebemos com imensa tristeza a notícia do falecimento de Manoel Torres. Símbolo de dignidade e coerência. A imagem mais perfeita do espírito seridoense.
João Maia – Deputado Federal

Manoel Torres participou ativamente da vida pública do Rio Grande do Norte durante várias gerações, preservando intacta a sua coerência política, sem abrir mão dos seus princípios, ao mesmo temo em que conviveu de forma altiva e serena com os seus adversários.
Ricardo Motta – Presidente da Assembleia Legislativa

Ele era um político tradicional e foi um exemplo que dignificou a nossa terra e região. É exemplo para os novos políticos, para os jovens e pra todo o Seridó. Sem dúvida nenhuma, Manoel Torres foi uma figura importantíssima pra Caicó.
Vivaldo Costa – Deputado Estadual

Fica o reconhecimento pelo grande trabalho desenvolvido por esse exemplar homem público durante seus dois mandatos à frente do Executivo municipal e que, mesmo depois de afastado da política, nunca deixou de acreditar e fomentar o progresso e o desenvolvimento de Caicó.
Nélter Queiroz – Deputado Estadual

O Seridó tem uma dívida de gratidão com Manoel Torres, pelo trabalho, pelas obras, pelo esforço que ele empreendeu em favor de nossa cidade durante toda sua honrada vida pública. Tudo o que eu fiz, devo à participação de Manoel Torres. E ele estará sempre presente na memória, na gratidão e na consciência do povo do Seridó.
Álvaro Dias – ex-Deputado Estadual

Manoel Torres é uma legenda do povo seridoense. Um dos maiores políticos do estado, tendo exercido uma vida pública com dedicação total a Caicó, colocando suas qualidade de honradez, dignidade, inteligência e capacidade a serviço das grandes causas.
Bibi Costa – Prefeito de Caicó

Sua morte enluta a todos, pois Manoel Torres tinha um vasto trabalho em prol do nosso povo, no crescimento do município e pela melhoria nas condições de vida dos cidadãos.
Leleu Fontes – Presidente da Câmara Municipal de Caicó

Que a trajetória de luta de 'Seu Mané', sirva de exemplo para todos nós.
Roberto Germano – ex-Prefeito de Caicó

As imagens do velório

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


BIOGRAFIA
Manoel Torres e Oscarina: desde 1942

O empresário e político Manoel Torres de Araújo nasceu no sítio Clemente, em Timbaúba dos Batistas, na época município de Caicó, em 1918, filho Paulino Batista Pereira Torres e Maria Marcolina de Oliveira Torres, membros de tradicional família seridoense. 
Era viúvo de Oscarina de Oliveira Torres (falecida em 2008), sua companheira fiel e grande parceira de todas as lutas desde 1942, quando os dois se conheceram em Serra Caiada, nas andanças de Manoel no começo de sua vida empresarial.
O casal teve seis filhos: Ozelita, Lígia, Carlos Torres (Galileu), Manoel Torres Filho, Jussara e Marcos (falecido).
Manoel Torres começou a estudar e concluiu o primário em São Fernando. 
Fez o curso complementar no Grupo Escolar Senador Guerra, em Caicó, considerado, à época, a faculdade da juventude caicoense. 
Em 1938 foi morar em Natal para continuar os estudos, mas não concluiu sequer o ginasial como era seu desejo, em decorrência das condições econômicas do pai, um agropecuarista sacrificado que tinha mais nove filhos para criar: Iracema, Polion, José, Francisco, Sebastião, Francisca Jarina, Jandira, Iluminata e Maria.
Em 1941 começou o Curso Comercial, em Caicó, fundado por Monsenhor Walfredo Gurgel e pelo bancário Felipe Nery, primeiro gerente do Banco do Brasil em Caicó. 
Novamente teve de interromper os estudos para assumir outras atividades. 
No ano seguinte, Manoel Torres exerceu a sua primeira função pública ao assumir o cargo de Secretário-Tesoureiro da Prefeitura de Serra Negra do Norte, administrada por Descartes de Medeiros Mariz, irmão de Dinarte Mariz, ex-prefeito de Caicó, futuro senador e governador do Rio Grande do Norte. 
Passou um ano no cargo.
Em 1943 foi novamente para Natal, a convite da empresa João Câmara & Irmãos, na época o maior parque industrial do Rio Grande do Norte no ramo de algodão, com sete usinas instaladas no interior. 
Além de atuar no ramo, Manoel Torres pretendia continuar os seus estudos. 
Não deu de novo: João Câmara, que posteriormente organizaria o PSD no interior do Rio Grande do Norte, aproveitou o talento do jovem caicoense para mandá-lo ao interior, supervisionar as usinas de algodão.
Em 1944, voltou a Caicó, a convite de Polion Torres, seu irmão mais velho. 
Os dois constituíram uma sociedade para transportar mercadorias e vender estivas. 
Os próximos 15 anos de sua vida se passaram em Caicó. 
Em 1959, em sociedade com os irmãos e em parceria com a empresa Irmãos Santos, de Natal, fundaram a empresa Santorres Comércio S/A, para representar a Willys-Overland do Brasil como revendedores autorizados de jeeps, utilitários e peças para o interior do Rio Grande do Norte e sertão da Paraíba. 
Encerrado o contrato com a Willys, a partir de 23 de setembro de 1970 a Santorres passou a representar a Mercedes Benz do Brasil, vendendo caminhões e peças e prestando assistência técnica. 
Até hoje a empresa mantém suas atividades, com filial na cidade de Patos, Paraíba.
Quase que simultaneamente à instalação da Santorres, Manoel Torres, irmãos e outros amigos se associaram e fundaram a Algodoeira Seridó Comércio e Indústria S/A (ALSECOSA). 
Foi uma das maiores empresas do ramo. 
A ALSECOSA entrou forte no mercado de compra e beneficiamento de algodão, industrialização da semente e extração de óleo. 
Manoel Torres ficou como diretor da empresa até 1986, quando a praga do bicudo dizimou a produção de algodão em todo Rio Grande do Norte.

POLÍTICA
Manoel Torres e Garibaldi Filho
Com o ex-presidente Tancredo Neves

Manoel Torres dedicou boa parte da sua vida à atividade política e desempenhou funções de grande relevância. 
Nunca se ofereceu para exercer quaisquer cargos: sempre foi convocado à luta política, pela população e correligionários, apenas para contribuir para o desenvolvimento de sua terra Caicó.
Em 1945, ao lado dos irmãos, do Monsenhor Walfredo Gurgel, Coronel Joel Dantas, Plínio Saldanha e muitos outros, ajudou a fundar o antigo PSD (Partido Social Democrático), liderado pelo senador Georgino Avelino e por João Câmara. 
Participou de todas as grandes campanhas políticas do Rio Grande do Norte. 
No começo com o Monsenhor Walfredo Gurgel, posteriormente com Aluízio Alves e mais recentemente com o deputado Henrique Eduardo e o senador e ministro Garibaldi Filho.
Henrique Eduardo Alves e Manoel Torres

Em 1954, Manoel Torres foi convocado e disputou sua primeira eleição para deputado estadual. 
Foi eleito e reeleito nas duas legislaturas seguintes. 
Participou ativamente da Cruzada da Esperança, em 1960, apoiando a chapa Aluízio Alves/Monsenhor Walfredo Gurgel, governador e vice. 
Em 1966, num gesto de desprendimento pessoal e político que sempre o caracterizou, Manoel Torres abdicou de sua terceira reeleição para dar lugar a José Josias Fernandes, que foi eleito deputado estadual.
Voltou a se dedicar integralmente às atividades empresariais, na ALSECOSA e na Santorres. 
Em 1968, novamente convocado pelo seu partido, disputou a Prefeitura de Caicó pela primeira vez. 
Perdeu por 72 votos para Francisco de Assis Medeiros, numa das campanhas mais acirradas e memoráveis da história local. 
Em 1972, disputou novamente a Prefeitura de Caicó e venceu com 75 votos de maioria o seu adversário Vivaldo Costa, jovem médico recém-chegado à cidade. 
De 1973 a 1976 exerceu o cargo de Prefeito de Caicó enfrentando uma oposição radical à sua administração. 
O seu mandato foi marcado pela austeridade nos gastos públicos e pela realização de obras significativas, como a Rodoviária Manoel de Neném e a implantação do calçamento em dezenas de ruas da cidade.
Depois que entregou a Prefeitura ao seu sucessor Dadá Costa, Manoel Torres voltou às atividades empresariais em 1978. 
Quatro anos depois, novamente convocado pelas bases, Manoel torres disputou seu quarto mandato de deputado estadual e foi eleito para representar Caicó e o Seridó na Assembléia Legislativa. 
Não foi candidato à reeleição em 1986, mas voltou à luta política em 1988 na disputa pela Prefeitura de Caicó, tendo como companheiro de chapa o médico Álvaro Dias. 
O povo lhe deu o segundo mandato de Prefeito de Caicó. 
De 1993 a 1996 voltou à lida empresarial. 
Lobão, Álvaro Dias, Geraldo Melo, Manoel Torres e Airton Dias: campanha de 2004

Em 1996, disputou seu último mandato eletivo como candidato a Prefeito de Caicó. 
Perdeu a eleição para o seu mais tradicional adversário Vivaldo Costa, hoje deputado estadual. 
Em 1998 formou, como primeiro suplente, a chapa encabeçada pelo ex-governador Geraldo Melo para o senado da República. 
Geraldo foi eleito, mas Manoel Torres não chegou a assumir o mandato em nenhuma ocasião.
Em 2000, num gesto de extremo desprendimento político – considerando-se a sua rica e vitoriosa trajetória política e a sua liderança pessoal – Manoel Torres foi convocado para ser o candidato a vice-prefeito de Caicó na chapa encabeçada pelo vereador Roberto Germano. 
Nova vitória contra Vivaldo Costa, o eterno adversário político. 
Foi a última eleição disputada pelo velho líder. 
Manoel Torres ainda participou das eleições de 2002, 2004 e 2006, apoiando os candidatos do seu sistema político.
Manoel Torres foi um exemplo de honestidade e honradez para as atuais e futuras gerações de homens públicos do Rio Grande do Norte.



O fim do ciclo do algodão na política 
Janduhi Medeiros 

Com a morte de Manoel Torres, as algodoeiras se fecham, definitivamente, e termina no Rio G. do Norte o ciclo do algodão na política. 
Durante décadas a hegemonia da política no Estado era decidida nas ribeiras do Seridó. 
O discurso era a cultura do algodão. 
Manoel Torres foi o último líder político da geração do ouro branco, que teve como influentes maiores no Estado: José Augusto Bezerra de Medeiros, Dinarte de Medeiros Mariz e Monsenhor Walfredo Gurgel, todos de uma linhagem sertaneja pura e uma tradição tingida de fibras mocó. 
Seu Manoel soube construir o seu pequeno império e absorver com serenidade essa representação típica da tradição da política do Seridó e enfrentar, a partir dos anos sessenta, com muita moderação - é verdade, a gigantesca força política herdada por Dinarte. 
Sua liderança política conquista atenção a partir de 1945, quando, ao lado de outras lideranças da região, de sua família e, principalmente, do monsenhor Walfredo Gurgel, funda o Partido Social Democrático – PSD, na cidade de Caicó, sob a liderança do senador Georgino Avelino e apoio de João Câmara, começando a intervir com mais atuação no processo político do Estado. 
Na nova sigla, foi eleito deputado estadual em 1945 e reeleito nas duas campanhas seguintes. 
Na campanha municipal de 1968, pela Arena Verde e tendo como lema a música “Bandeira Branca”, no charme da eterna voz de Dalva de Oliveira, travou com o então jovem advogado Francisco de Assis Medeiros, mas conhecido como Dr. Chiquinho, a mais antológica e acirrada disputa eleitoral do Seridó. 
Perdeu a eleição por uma diferença mínima de votos, mas ganhou a simpatia de todos, pela grandeza do seu comportamento político e pela dedicação no cultivo e na arte de negociar algodão. 
Sempre com o lema de paz e de união, continuou na política. 
Posteriormente, foi eleito prefeito de Caicó, por duas vezes, deputado estadual, por mais uma vez, e suplente de senador. 
Manoel Torres se destacou na política e no comércio de algodão. 
No final dos anos cinquenta, com a família e alguns amigos, fundou a Algodoeira Seridó, que iniciou suas atividades com destaque e força no mercado de beneficiamento da fibra, proporcionando-lhe bons lucros financeiros e oportunidade de articulações políticas. 
Sempre foi leal e fiel a sua legenda, porém, nunca recebeu da cúpula partidária o prestigio que merecia, mas também nunca se lamentou, por orgulho de comportamento. 
A algodoeira, sob a sua administração, tentou, quase que isoladamente, resistir à crise do algodão, sendo a última usina beneficiadora a fechar as portas no sertão do Seridó. 
Com a morte de Manoel Torres, terminou o ciclo político do algodão, no Estado da fibra mocó, e as algodoeiras ficaram, definitivamente, recolhidas.

Manoel Torres - Exemplo de 
político que não existe mais
João Batista Machado

O Rio Grande do Norte perdeu recentemente a figura austera e respeitável de Manoel Torres de Araújo, um seridoense fiel às suas origens e solidário aos amigos em momentos de dificuldades, principalmente quando o arbítrio se abateu sobre o país, infelicitando a vida deles. Pessedista histórico, foi deputado estadual por três legislaturas e duas vezes prefeito de Caicó. Encerrou a vida pública como vice-prefeito daquela cidade. Juntamente com monsenhor Walfredo Gurgel e o desembargador Tomaz Salustino, eram as mais expressivas lideranças do PSD no Seridó.
Manoel Torres pertencia a um tempo em que os políticos gastavam dinheiro do próprio bolso para se eleger, sem pensar em qualquer tipo de recompensa. Cabia, ainda, aos mais abastados como ele (proprietário de usina de algodão e de concessionárias de automóveis), ajudar financeiramente correligionários modestos, visando o crescimento do partido. Na política, nunca cobrou de ninguém as despesas efetuadas em sucessivas campanhas. Sua característica marcante eram os óculos escuros que usava até mesmo em ambiente fechado. “É para o adversário não saber para onde estou olhando”, confidenciou ao amigo Manoel de Brito.
Prefeito de Caicó (duas vezes), não se conhece um ato de improbidade durante as suas gestões naquela cidade. Até os adversários reconheciam isso, em plena fase do radicalismo provinciano inconciliável. Não era um político populista. Pelo contrário, fazia da seriedade e do comportamento ético os instrumentos de captar voto. Ganhou e perdeu eleições, mas sem mudar o hábito de fazer política com decência na vida pública.
Quando, em 1960, a ala majoritária do PSD optou pela candidatura do udenista Aluízio Alves ao governo do Estado, Manoel Torres ficou ao lado dele e do monsenhor Walfredo Gurgel, que foram eleitos governador e vice numa memorável campanha. Participou ativamente da campanha de 1965, que levaria o senador Walfredo ao governo do Estado como sucessor de Aluízio. Foi o monsenhor quem lançou o empresário Manoel Torres na política como candidato a deputado estadual em 1955 pelo PSD. 
Com a extinção dos tradicionais partidos existentes pelo Ato Institucional nº 2 em 1965, o regime militar impôs o bipartidarismo criado artificialmente de cima para baixo. Aqui, o partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), foi dividido em duas facções para alojar os partidários do deputado Aluízio Alves e do senador Dinarte Mariz, com as denominações de Arena “Verde” e Arena “Vermelha”, cores símbolos das lideranças rivais abrigadas sob o mesmo teto.
Com a cassação do deputado Aluízio em 1969, através do AI-5, Manoel Torres permaneceu na Arena Verde solidário ao governador Walfredo Gurgel até sua morte em 04/11/1971, meses após deixar o governo. Em seguida, filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dando nova solidez à oposição no Seridó. Com o ingresso de novos filiados, a modesta legenda oposicionista alcançou voos mais altos, consolidando prestígio político, conquistando espaços maiores e vislumbrando futuro promissor.
Naquela época, realmente existia a fidelidade partidária. Político de caráter não mudava de partido. Pelo contrário, gastava dinheiro investindo no seu crescimento com recursos próprios. Não existia dinheiro de caixa dois, prática tão comum nos dias de hoje, em que se misturam, de maneira promíscua, o público e o privado. Seu adversário, o senador Dinarte Mariz, por exemplo, gastou fortunas em campanhas dos correligionários da UDN. Em menor proporção, evidentemente, Manoel Torres fazia em favor do PSD.
Esse modelo de político não existe mais. Hoje as campanhas são financiadas por empreiteiros e organismos públicos, deformando o voto popular e prostituindo a representação no Congresso Nacional. Manoel Torres de Araújo pertencia a essa espécie em extinção. Talvez seja um dos últimos representantes daquela maneira diferenciada de fazer política. Afastou-se dela com as mãos limpas e deixou um exemplo para as novas gerações.
Jornalista 
Artigo publicado na edição de 2 de fevereiro de 2012 do Novo Jornal