domingo, 26 de março de 2017

Sacando por conta


Ciduca Barros

Os funcionários do Banco do Brasil de antigamente eram tidos como “bons partidos”. Quando algum solteiro tomava posse numa agência de uma cidade interiorana, a mulherada ficava em polvorosa e, por que não dizer, as mães das meninas também. 
Lembro-me bem de que, trabalhando numa determinada filial do banco, foram nomeados para agência, de uma só vez, oitos funcionários, todos solteiros. Pense você, meu caro leitor, o bochicho que correu entre as interessadas em “juntar os trapinhos” com um venturoso bancário.
Esta história é daquela época, ocorrida numa de nossas cidades. Assumiu ali um colega jovem, bonito e solteiro. Seria desnecessário dizer que houve uma acirrada disputa entre as donzelas casadoiras locais e, por que não dizer, da jurisdição da agência. 
Quem é daquela época lembra bem que a moral e os bons costumes ainda estavam em voga, ou seja, a paquera (ou flerte?), o namoro e, também, o noivado eram acompanhados diretamente pelas respectivas mamães das meninas, fornecendo sempre relatórios consistentes aos seus respectivos papais. 
Depois de uma acirrada disputa entre as concorrentes, quem ganhou o páreo? A moça mais angelical, pura, casta, virtuosa e santa de todas elas. Para se coadunar com os seus bons adjetivos o seu nome era Cândida. Ela era uma menina considerada “bem-criada” e “presumivelmente virgem”. 
E, com o beneplácito dos pais dela, aquele namoro prosperou. E, para gáudio dos pais da moça, o namoro se transformou em noivado. Contrastando com o dissabor reinante entre as mães das perdedoras, era evidente o orgulho dos futuros sogros com aquele rendoso casamento. Afinal, a sua linda e imaculada filhinha iria casar com um funcionário do Banco do Brasil.
Toda esta novela mexicana foi acompanhada, em todos os seus capítulos, pela sociedade local, pelos colegas do Banco e por seus respectivos familiares. Lembre-se de que, naquela década, ainda não tínhamos televisão, ou seja, por falta de assunto, as pessoas, principalmente do interior, eram muito mais ligadas na “vida alheia” do que são atualmente.
Assim, eles estavam noivos e com o casamento marcado. Daí, não deu outra: mais liberdade e permissividade para os pombinhos enamorados. Em consequência de tanta tolerância e indulgência: tragédia. Faltando apenas dois meses para o enlace, Cândida, aquela menininha pura e sem mácula, estava grávida. Ou seja, o noivo “sacou por conta”.
Houve, então, uma verdadeira celeuma no âmbito da família. E agora? Como manter o terrível segredo sobre a gravidez numa cidade que adorava fofocas? Depois de uma reunião familiar e secreta, que atravessou a madrugada, foi traçada uma linha de conduta (ou seria uma norma de comportamento?): manteriam o segredo e quando o bebê nascesse, diriam que foi um parto prematuro e o neném seria de “sete meses”.  Um plano matematicamente perfeito: 2 meses que faltavam para o casório + 7 meses do pseudobebê prematuro = 9 meses. Na volta da lua de mel (logicamente sem o mel), o casal e os familiares da ex-moça já divulgavam que ela estava grávida. Ótimo, o plano começou a funcionar.
E aritmeticamente teria funcionado se o destino não interviesse. Eles se esqueceram de combinar com o Homem lá de cima. A mãe natureza deu a sua mãozinha e um lindo e saudável garoto nasceu realmente de “sete meses”, ou seja, há apenas cinco meses do casório.
Foi um prato cheio para as fofoqueiras da cidade, fomentado naturalmente pelas mães das concorrentes perdedoras.


Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
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