terça-feira, 18 de abril de 2017

Inclinações Musicais

Milton Nascimento
Heraldo Palmeira

Antes de embarcar para Brasília encontrei Beto, um velho amigo que iria do Rio para o Nordeste. Fazia tempo que não tínhamos notícias mútuas e começamos nosso encontro por um abraço demorado.
Estudamos juntos quando jovens, e naqueles tempos nossas conversas varavam boas madrugadas. Contei minhas novidades primeiro e logo chegou a vez dele, pois era evidente sua ansiedade. Tivera um casamento que durou pouco e apostara, desde a separação de quase vinte anos, no caminho teoricamente mais simples dos relacionamentos furtivos. Tinha uma vida parecida com a minha, de viagens constantes, e virara um solteirão convicto.
Ele me falou da dificuldade de levar relacionamentos a sério. Contou de várias namoradas, namoradas ao mesmo tempo no melhor estilo marinheiro, um amor em cada porto, até que Júlia – que também era minha amiga daqueles tempos – apareceu e jogou todas essas teorias e práticas pelos ares, empurrou o navegador para terra firme.
Por algum motivo insondável, Beto quis estar sozinho quando percebeu que a chegada dela era inevitável e com ares de porto seguro, e foi se afastando das outras mulheres. Agora andava radiante porque, pela primeira vez em tantos anos, estava vivendo uma relação clara, limpa, monogâmica e deslumbrante – palavras dele.
O meu amigo trazia naquele momento um brilho no olhar que saltava aos olhos, me contou do novo amor numa conversa deliciosa que nos distanciou da confusão e do desconforto comuns das salas de embarque. Logo me dei conta de que formavam um casal óbvio que algum capricho do destino e das correntes demorou a juntar.
– Você pode rir de mim, se quiser, pois sei que estou meio bobo mesmo. Mas algo me diz que vou amar muito essa mulher, que finalmente vou ter um relacionamento como sempre sonhei.
Anunciaram o embarque do meu voo. Dei um abraço afetuoso no meu amigo, fiz um afago em sua bochecha. Desejei que o clima de renascimento tomasse conta deles dois e fui embora feliz.
– Dê um beijo na Júlia, diga que estou torcendo!
Desembarquei, peguei o carro no estacionamento do aeroporto e segui sem pressa, observando a cidade vazia pelo feriado de Páscoa.
Talvez a Páscoa passe distante dessa conversa mole de coelhos machos botando ovos de chocolate enormes – isso deve explicar aqueles olhinhos esbugalhados! Talvez a Páscoa esteja nesse compasso descompassado dos corações apaixonados, como pandeiros que se apressam quando toca a música certa, que arrepia, que dá frio na barriga.
Ele havia deixado claro que mexera nos seus demônios, que andou morrendo de medo nos primeiros momentos, mas algum tipo de certeza começou a apressar seu coração, a desmantelar suas incertezas convictas de tantos anos.
Afinal, só porque os tempos atuais nos exigem apressados, fugazes, superficiais, alheios, infelizes, invejosos, traiçoeiros, obsessivos, mentirosos, não é razoável todo mundo estar obrigado a se mostrar praticante da negação dos afetos.
É claro que preferi acreditar naqueles dois e desejar a mesma sorte, pois meu amigo estava convincente demais. No rádio do carro a voz celestial de Milton fazia perguntas infernais. Beto e Júlia voltaram à minha mente. Desejei vida longa a tudo que estava representado naquela felicidade escancarada horas antes pelo meu amigo.

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito, me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O rádio do carro continuou sem deixar por menos. Geraldo Azevedo, que conheço há tantos anos com muito bem-querer, seguiu apontando a rota do porto com a delicadeza costumeira.

Coração, essa mesma batida
Que bate tão diferente
Quando acontece na gente
O mesmo amor
É um amor diferente demais
Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais

Não entendi por que me veio à mente olhos cor de mel, covinhas, cabelo ao vento, marcas de sol... daquela que desacata, que é revelia, Dona Flor que Jorge Amado nos colocou latente à flor da pele, rediviva naquela trilha sonora linda!
Ainda estou sem resposta para a mesma batida do coração, que bate tão diferente. Inclinações musicais de quem inventou o amor? Acontece na gente, feito impressão digital, como canções parecidas e tão desiguais.

(*) Rebatizei meus amigos como Beto e Júlia para deixá-los incógnitos em seus beijos e abraços inteiramente apaixonados. Vida longa ao amor deles! O mesmo amor, um amor diferente demais!

(**) Trechos de O que será (À flor da pele), (Chico Buarque) / Inclinações musicais (Geraldo Azevedo-Renato Rocha).


Documentarista e produtor cultural, colaborador do Bar de Ferreirinha



Postar um comentário